
Autor: José Saramago
Idioma: Português
Ano de edição: 2010
Páginas: 352
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722121002
Preço: 15,00€
Edição especial do livro “A Jangada de Pedra“ cujas vendas reverterão integralmente a favor das vítimas do sismo no Haiti.
Saramago anuncia um acordo entre todos os envolvidos, desde os gráficos até os livreiros, para que os 15 euros de cada exemplar sejam cedidos para ajudar as pessoas atingidas pela catástrofe. A ajuda será canalizada pela Cruz vermelha que receberá o valor angariado.
O livro “A Jangada de Pedra” é um dos mais aclamados livros de José Saramago. Nele, o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais onde ele imagina uma separação física da Península Ibérica que segue em direcção aos Açores.

OS ESFORÇOS PARA ACUDIR AO HAITI (MAIS UMAS INICIATIVA…)
É um lugar comum. Os esforços para acudir às vítimas da tragédia do Haiti não serão
nunca demais. Morre-se em cada hora que passa. Cerca de 120 mil mortos, um grau de
destruição quase inimaginável, a agonia das estruturas
estatais/assistenciais/administrativas de um País. Pobre
situação a de um povo que começou a sua História lutando pela liberdade contra os donos
de escravos franceses no início do século XIX, que venceu essa prova, mas que tem
conhecido guerras internas, invasões e ocupações estrangeiras, além de desastres
naturais, ao longo de dois séculos… para já não falar das ditaduras que pouco dignos
filhos seus exerceram.
É curioso ver como se unem esforços.
Uma iniciativa em particular chama a atenção. O Nobel português, José Saramago , vai
promover uma edição especial de solidariedade do seu livro de 1986, “Jangada de Pedra”.
Citando agências noticiosas e a sua fundação, «a acção de solidariedade reverte a favor
das vítimas do sismo do Haiti e decorrerá
futuramente também em Espanha e na América Latina. O livro custa €15 e estará disponível
nas livrarias a partir de sexta-feira; e porque, segundo o próprio Saramago “todos temos
uma obrigação”, a campanha “Uma Jangada
de Pedra a caminho do Haiti” vai prolongar-se até 28 de Fevereiro de 2010.»
Recorde-se que esta obra descreve um cenário imaginário, no qual uma espécie de
terramoto lento separa a Península Ibérica do resto da Europa, e a coloca à deriva, como
uma gigantesca ilha, no que é interpretado por alguns críticos como uma das primeiras
manifestações de iberismo deste escritor. A catástrofe imaginária terá levado o autor a
escolher este livro
para esta acção, em que se procurará acudir às carências resultantes de uma catástrofe
real.
O livro é ainda hoje muito citado. Não parece crível que o autor, com este gesto,
esteja a sugerir que a Haiti se deva deixar governar por alguma potência externa e
vizinha, como por exemplo a República Dominicana, já que Saramago é um conhecido lutador
pela liberdade dos povos e pela direito à auto-determinação, como recentemente se viu em
relação ao Sahará ex-espanhol. Aliás, no livro, o Nobel não hesita em ironizar sobre as
esperanças espanholas sobre Gibraltar… que não acompanha a península na imaginária
ruptura geográfica… referindo mesmo que sobre este litígio o português é pouco
“sensível” … já que «a sua mágoa histórica chama-se Olivença e este caminho não leva
lá.»(página 89)
Receia-se, porém, que Saramago não seja bem compreendido nesta sua iniciativa, por
causa da escolha desta obra em concreto, e que poderá sujeitar-se a alguns comentários
algo cépticos.
Penso que todas as iniciativas a favor do Haiti serão positivas, desde que eficazes
e desinteressadas. Esta não será excepção, mas penso que Saramago, e ele que me desculpe,
poderia ter escolhido outro texto. Valha-nos a qualidade literária!!!
Estremoz, 27 de Janeiro de 2010
Carlos Eduardo da Cruz Luna